II MUTICOM reúne comunicadores para refletir sobre evangelização e os desafios da comunicação digital
A Pastoral Diocesana da Comunicação realizou, no sábado, 26 de setembro, o II MUTICOM, Mutirão de Comunicação, no Auditório São Paulo Apóstolo, na Cúria Diocesana. Com o tema “Comunicação Pastoral e Evangelização”, o encontro reuniu cerca de 150 participantes em uma programação dedicada à formação, à partilha de experiências e à reflexão sobre os desafios da comunicação na missão evangelizadora da Igreja.
A programação teve início na noite anterior, sexta-feira, em formato on-line, como um momento de preparação para o encontro presencial. O “esquenta” contou com a participação do padre Fabiano Roberto dos Santos, da Arquidiocese de Uberaba, que abordou o tema “O chamado não suporta espera”. O momento terminou com espaço para perguntas e partilhas, marcado também pela emoção dos participantes.

No sábado, a programação começou com a Santa Missa, celebrada na Capela da Catedral. A celebração foi presidida pelo padre Rodrigo Antônio da Silva, Vigário Episcopal para a Comunicação, e concelebrada pelo padre Pe. Osei Tutu Asante, svd ou padre “Tutu”, da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Vila das Belezas.

Comunicação que nasce do encontro com Cristo
Na homilia, padre Rodrigo destacou que a comunicação pastoral não pode ser reduzida ao uso de câmeras, redes sociais ou outras ferramentas. Embora esses recursos sejam importantes, a missão do comunicador cristão encontra seu fundamento em uma experiência pessoal com Jesus.
Partindo da reflexão apresentada pelo padre Fabiano na abertura do MUTICOM, afirmou que a comunicação pastoral nasce de uma experiência vivencial que se transforma em testemunho. Mais do que transmitir informações, trata-se de comunicar de maneira capaz de provocar reflexão e despertar nas pessoas uma abertura para o encontro com Deus.
“Antes de sermos comunicadores ou agentes de pastoral, precisamos ser discípulos de Jesus”, destacou. Para ele, quem comunica na Igreja não transmite apenas atividades ou conteúdos, mas o próprio Cristo. Essa missão exige intimidade, convivência e uma experiência contínua com o Senhor.

A relação de Pedro com Jesus foi apresentada como exemplo. Sua profissão de fé nasce não apenas da ação do Espírito Santo, mas também da convivência com o Mestre, de quem ouviu os ensinamentos e acompanhou os gestos. Da mesma forma, o comunicador pastoral é chamado a comunicar a partir de uma experiência verdadeira de fé.
O sacerdote também recordou que os agentes de pastoral não estão na Igreja apenas para cumprir tarefas. A missão nasce do discipulado e, quanto mais profunda a experiência com Cristo, mais autêntico se torna o testemunho.
A reflexão destacou ainda a necessidade de sabedoria e equilíbrio diante dos desafios atuais. As leituras dos Livros de Sabedoria foram apresentadas como inspiração para um “bem viver” próximo de Deus. Para o comunicador pastoral, essa sabedoria ajuda a discernir caminhos, evitar extremos e abrir espaço à ação do Espírito Santo.
Formação e partilha
Após a celebração, os participantes realizaram o credenciamento e compartilharam o café da manhã antes da primeira palestra do dia, conduzida pelo teólogo e missionário digital Raylson Araújo, que abordou o tema “A Magnífica Humanidade na Era Digital: O Desafio da Pascom Frente à Inteligência Artificial”.

A reflexão partiu de uma provocação central: a inteligência artificial não é apenas uma questão tecnológica, mas uma questão humana. A partir da Magnifica Humanitas, documento do Papa Leão XIV, Raylson convidou os participantes a deslocarem a pergunta de “como usar a ferramenta?” para uma questão ainda mais profunda: “como permanecemos humanos e ajudamos outros a permanecerem humanos?”.
Ao abordar a relação entre inteligência artificial e fé, o palestrante destacou que a tecnologia pode imitar linguagens e comportamentos humanos, inclusive a linguagem religiosa, mas não possui experiência, corpo, consciência moral ou relações humanas. A IA pode imitar a linguagem da fé, mas não pode rezar, amar ou se converter, ressaltando o risco de que relações simuladas acabem substituindo o desejo pelo encontro real com o outro.
Nesse sentido, Raylson ressaltou que o desafio da Igreja não está em simplesmente aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas em discernir como utilizá-la sem perder aquilo que constitui a experiência humana e cristã: a relação, o cuidado, a escuta, a responsabilidade e o amor. A Magnifica Humanitas apresentada na palestra reforça que o ser humano não deve ser reduzido a dados, algoritmos ou desempenho.
A reflexão também apontou caminhos concretos para os cristãos diante desse cenário: desarmar as palavras, custodiar o coração, cuidar das relações, educar e revitalizar o diálogo. Entre esses caminhos, destacou-se a importância de oferecer aquilo que o digital, por si só, não pode proporcionar: tempo compartilhado, escuta e relações confiáveis.
A palestra trouxe, assim, uma perspectiva que ultrapassou a discussão sobre ferramentas. A pergunta central passou a ser que tipo de humanidade a Igreja deseja construir em uma sociedade cada vez mais atravessada pela inteligência artificial.
Na sequência, uma roda de conversa conduzida pela coordenadora diocesana da Pascom, Andreia Conrado, e pelo assessor diocesano da Comunicação, padre Rodrigo Antônio da Silva, reuniu agentes das pastorais de comunicação das paróquias.
A conversa foi realizada a partir de seis perguntas sobre a realidade da Pascom e contou com a participação de três representantes paroquiais, que compartilharam suas experiências, acertos, receios e desafios no trabalho de comunicação pastoral.
Participaram da roda de conversa Tábata Noriko, coordenadora da Pascom da Paróquia Nossa Senhora das Graças, da Forania M’Boi Mirim; Donizeti Rosanelli, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, da Forania Taboão da Serra; e Tatiane Xavier, da Paróquia Verbo Divino, da Forania Mirim-Guaçu. O momento proporcionou escuta, troca de experiências e reflexão sobre as diferentes realidades encontradas nas comunidades, fortalecendo a comunhão entre os agentes da Pascom.
O almoço também foi espaço de convivência, fraternidade e reencontro entre os comunicadores. Dom Valdir José de Castro, bispo diocesano, não pôde participar presencialmente por estar na 47ª Assembleia do Regional Sul 1, mas enviou uma mensagem em vídeo aos participantes.

No período da tarde, a programação continuou com a oficina “Inteligência Artificial na Pascom: o discernimento e a técnica”, conduzida por Luiz Claudio, assessor da Pastoral da Comunicação do Sul 1, e Andrew Murilo Cerqueira, profissional da área de comunicação e tecnologia e coordenador de projetos. A atividade propôs exercícios práticos para ajudar os comunicadores a compreender melhor as possibilidades e os desafios do uso da inteligência artificial na pastoral. Entre as possibilidades apresentadas estiveram a produção de textos e roteiros, criação e edição de imagens e vídeos, geração de conteúdos, redimensionamento de imagens e apoio ao planejamento e à produção de materiais de comunicação.
Andrew também apresentou experiências do projeto Santidade em Movimento, que utiliza criatividade, tecnologia e comunicação digital para levar a fé católica às novas gerações. O projeto, apresentado durante a formação, reúne uma presença significativa nas redes sociais e utiliza diferentes linguagens digitais para comunicar o Evangelho.
A oficina também apresentou ferramentas como o ChatGPT e recursos de geração de imagens e vídeos, além de orientações para a elaboração de prompts. A proposta foi mostrar que conhecer a tecnologia faz parte da formação do comunicador, mas seu uso precisa estar acompanhado de discernimento e responsabilidade.
Entre as possibilidades apresentadas para a Pascom estão ainda a produção de conteúdos acessíveis e inclusivos, apoio à formação, planejamento pastoral orientado por dados e criação de materiais para evangelização. Ao mesmo tempo, a formação chamou atenção para riscos como a desumanização do atendimento pastoral, a substituição da escuta pessoal por interações automatizadas, a desinformação e a utilização da tecnologia sem critérios pastorais.
Dessa forma, a oficina reforçou uma das principais mensagens do MUTICOM: a questão não é escolher entre o ser humano e a tecnologia, mas aprender a utilizar os recursos tecnológicos para potencializar a missão sem substituir aquilo que somente a presença humana pode oferecer.

Encerrando a programação formativa, o jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica e pesquisador na área de comunicação e religião, Marcello Zanluchi, apresentou a palestra “Comunicação Pastoral e Evangelização Persuasiva”.
Em sua reflexão, provocou os participantes a olhar para além da busca por visibilidade nas redes. “O que pode existir além da preocupação pelo ‘like’?”, questionou. A partir de sua trajetória de pesquisa, experiências pastorais e atuação junto a instituições de comunicação do Vaticano, destacou que nenhum algoritmo substitui a força de um gesto, de um olhar, da escuta ativa e de uma presença capaz de comunicar amor e sentido.

Zanluchi convidou a Pascom a redescobrir uma comunicação que evangeliza também por meio da gestualidade e da presença. A proposta foi um convite para que os participantes refletissem sobre como comunicar não apenas por meio das ferramentas digitais, mas também com a própria vida, com o corpo e com a verdade.
Ao longo de um dia de formação, partilha e convivência, o II MUTICOM reafirmou que comunicar na Igreja é uma missão que une técnica e espiritualidade. Mais do que aprender a utilizar novas ferramentas, os participantes foram convidados a fortalecer a identidade de comunicadores que encontram em Cristo a fonte de sua missão e fazem da comunicação um caminho de evangelização.
A mensagem deixada pelos diferentes momentos do encontro aponta para uma mesma direção: a tecnologia pode ampliar a voz da Igreja, mas é o encontro humano, alimentado pela fé, que dá sentido à comunicação pastoral.
O encontro foi encerrado pelo padre Rodrigo Antônio da Silva, vigário episcopal para a Comunicação, que agradeceu a todos os que contribuíram para a realização do MUTICOM, aqueles que trabalharam, doaram, apoiaram e, sobretudo, aos que se fizeram presentes e deram o seu “sim” à missão de comunicar o Evangelho.
Após os agradecimentos, os participantes receberam a bênção final e foram enviados novamente às suas comunidades, levando consigo o compromisso de colocar a comunicação a serviço da evangelização, da comunhão e do cuidado com as pessoas.
Na sequência, a coordenadora diocesana da Pascom, Andreia Conrado, também expressou sua gratidão pelo apoio recebido ao longo da caminhada, destacando que ninguém realiza a missão sozinho e que Deus coloca irmãos ao nosso lado para ajudar a caminhar e servir. Agradeceu especialmente ao vigário episcopal para a Comunicação, padre Rodrigo Antônio da Silva, à vice-coordenadora, Andrea Rodrigues, à secretária, Carol Andrade, e aos coordenadores das foranias, que, cada um conforme suas possibilidades e dons, se uniram e se colocaram a serviço para que o encontro pudesse acontecer.
Mais do que um encontro de formação, o II MUTICOM foi um momento de envio. Os comunicadores retornaram às suas comunidades com novos conhecimentos e o coração renovado para continuar anunciando a Boa-Nova de Jesus Cristo.
Um envio vivido em comunhão, na certeza de que ninguém caminha sozinho e de que, juntos, colocamos nossos dons a serviço da missão de comunicar e evangelizar.


















