Entre caminhos e fronteiras, a fé conduz peregrinos haitianos a Embu das Artes
De Aparecida para Embu das Artes. Dos Estados Unidos para o Brasil. E, antes disso, do Haiti para uma nova vida em terras norte-americanas. A trajetória dos peregrinos que chegaram à matriz da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, na tarde de sexta-feira, 16 de outubro, poderia ser contada pelas distâncias percorridas. Naquele dia, porém, foi diante do altar que diferentes caminhos voltaram a se encontrar.
O grupo era formado por 39 católicos haitianos e americanos, residentes nos Estados Unidos e pelo frei Ivans Jason, que pertence a Diocese de Camden, em Nova Jersey nos Estados Unidos. Eles chegaram a Embu das Artes após uma peregrinação ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, onde estiveram junto à Padroeira do Brasil.
A passagem por Embu das Artes deu continuidade a essa experiência de fé. Na matriz de Nossa Senhora do Rosário, o grupo participou da Santa Missa, presidida pelo próprio frei Ivans. A visita foi organizada pela agência de turismo receptivo Nextour, sob a coordenação, nesta atividade, de Ariane Novellino, e contou com o acompanhamento do pároco, padre Élcio Barros.

Mais do que uma parada entre um destino e outro, a celebração acrescentou ao percurso um novo encontro. Depois de estarem em um dos principais destinos de peregrinação católica do mundo, os visitantes encontraram em uma comunidade paroquial da Diocese de Campo Limpo a mesma Eucaristia que os acompanha independentemente das fronteiras geográficas.
Peregrinar é mais do que chegar
A peregrinação ocupa um lugar antigo na experiência cristã. Colocar-se a caminho de um lugar sagrado significa também aceitar que o próprio percurso pode se transformar em espaço de encontro com Deus.
Quem peregrina deixa temporariamente a rotina, percorre distâncias e carrega consigo intenções, agradecimentos, pedidos e histórias. O destino importa, mas o caminho também. É nele que diferentes pessoas se encontram e que lugares antes desconhecidos podem ganhar um significado particular.
Para aquele grupo, o caminho atravessava ainda mais fronteiras.

Os peregrinos chegaram ao Brasil trazendo consigo a própria história, sua cultura e sua maneira de expressar a fé. Em Aparecida, encontraram a devoção do povo brasileiro à Mãe de Jesus. Em Embu das Artes, encontraram uma comunidade paroquial que abriu suas portas para recebê-los.
A experiência recorda uma característica que acompanha a Igreja desde seus primeiros séculos: sua universalidade.
A palavra “católica”, originada do grego katholikós, traz justamente o sentido de “universal”. Não se trata de apagar as diferenças entre povos e culturas, mas de reconhecer que elas podem encontrar unidade na mesma fé.
Naquela tarde, essa universalidade ganhou uma imagem concreta. Haitianos e americanos que vivem nos Estados Unidos, peregrinando pelo Brasil, rezavam dentro de uma igreja em Embu das Artes. Países, idiomas e histórias distintas se encontravam diante do mesmo altar.
A igreja que acolhe quem está a caminho
A própria história do cristianismo é atravessada por deslocamentos. Desde os primeiros discípulos que deixaram Jerusalém para anunciar o Evangelho, a fé cristã percorreu estradas, atravessou mares e alcançou diferentes povos. Ao longo dos séculos, migrantes também carregaram consigo devoções, orações e tradições religiosas capazes de manter vínculos com suas origens e, ao mesmo tempo, criar novos laços nos lugares onde passaram a viver.
Por isso, para quem está distante da terra natal, uma igreja pode adquirir um significado que ultrapassa suas paredes. A liturgia, as orações e a Eucaristia tornam familiar um lugar até então desconhecido.
Foi essa experiência que a matriz de Nossa Senhora do Rosário proporcionou aos visitantes.

A passagem do grupo evidencia ainda uma dimensão particular do turismo religioso. Igrejas e santuários não são somente construções históricas a serem contempladas ou fotografadas. Para o peregrino, permanecem espaços vivos, nos quais é possível rezar, participar dos sacramentos e encontrar uma comunidade.
Ao receber os visitantes depois de sua passagem pelo Santuário Nacional de Aparecida, a Paróquia Nossa Senhora do Rosário tornou-se mais uma etapa dessa peregrinação. E, ao acompanhá-los, a comunidade exerceu uma das expressões mais simples da hospitalidade cristã: abrir as portas para quem chega.
Depois da Missa, o caminho continuaria de volta para casa. Como acontece com todo peregrino, era preciso voltar.
Mas aquela tarde deixou uma pequena imagem da Igreja que se diz universal: pessoas nascidas no Haiti e nos Estados Unidos, vindas da América do Norte, peregrinando pelo Brasil e reunidas em uma igreja da Diocese de Campo Limpo.
Tinham percorrido milhares de quilômetros até ali. Diante do altar, porém, ninguém precisava ser de perto para se sentir em casa.












