Uma comunidade que nasceu de um sonho e é chamada a manter as portas abertas
Antes de ter uma igreja no bairro, havia um grupo de moradores que se reunia para rezar. As novenas de Natal, realizadas nas casas do Jardim das Flores, terminavam na Paróquia Bom Jesus de Piraporinha, à qual a comunidade pertencia. Foi em uma dessas celebrações que nasceu o desejo de construir um espaço próprio, onde a fé pudesse reunir os moradores e fortalecer os laços entre eles.
A ideia encontrou força na disposição de quem acreditou que aquele sonho poderia se tornar realidade. Dona Maria Lima procurou o então pároco da Paróquia Bom Jesus de Piraporinha, padre Darcy Bortolini, e conversou sobre a possibilidade de construir uma igreja no bairro. Ele pediu que a comunidade encontrasse um terreno e se comprometeu a ajudar. Em pouco tempo, os moradores apresentaram uma opção para compra.

A aquisição do terreno contou com a colaboração de pessoas da própria comunidade, que emprestaram dinheiro para viabilizar a negociação. Para levantar os recursos necessários à construção, os moradores também reuniam materiais recicláveis na garagem de Dona Maria e do senhor Joaquim, responsável pela construção da igreja, além de organizar pequenas festas de rua e contar com ofertas.
Trinta e cinco anos depois, aquela iniciativa comunitária foi recordada na celebração do aniversário de criação da Paróquia Maria, Mãe da Igreja. No dia 3 de novembro, a comunidade se reuniu na Igreja Matriz de São Sebastião, no Jardim das Flores, Forania M’Boi Mirim, para a missa em ação de graças presidida por Dom Valdir José de Castro, bispo diocesano. Concelebraram o pároco, padre Otávio Augusto Oliveira de Freitas, o monsenhor Luiz Carlos Paredes, vigário-geral da Diocese, padre Robson José da Silva e padre Gilson Gilberto dos Santos.
Uma Igreja com lugar para todos
A memória dos primeiros passos da paróquia encontrou um sentido especial na homilia de Dom Valdir. A partir das leituras proclamadas, o bispo apresentou a Igreja como um banquete preparado por Deus, uma mesa que não pode ser reservada a um grupo, mas permanece aberta a todos, sobretudo àqueles que vivem situações de pobreza, marginalização ou afastamento.
“Na Igreja há lugar para todos”, recordou. A imagem do banquete, explicou, ajuda a compreender que a comunidade cristã não pode se fechar em si mesma. Sua missão não se resume a receber quem procura a Igreja, mas inclui tomar a iniciativa de se aproximar de quem está distante.
“Não só acolher as pessoas que vêm, mas nós também iremos em busca dessas pessoas”, afirmou Dom Valdir, convidando a comunidade a olhar para além de seus espaços e atividades, reconhecendo as realidades e necessidades presentes no território.

O bispo relacionou esse compromisso à exortação de São Paulo aos Filipenses: “Tem entre vós o mesmo sentimento que existe em Jesus Cristo”. Para ele, a vida comunitária precisa ser marcada pelos sentimentos de Jesus, como o amor, a bondade, a ternura, a compaixão, a mansidão e a gratidão. São atitudes que não permanecem apenas no discurso, mas se manifestam nas relações cotidianas, na maneira de acolher e no cuidado com cada pessoa.
Nesse caminho, Dom Valdir destacou a humildade como condição para a comunhão. Inspirado em Jesus, que se esvaziou e assumiu a condição de servo, o cristão é chamado a abandonar a lógica da superioridade e a colocar-se junto dos irmãos. “O humilde é aquele que está junto”, sintetizou.
A reflexão também apontou para a responsabilidade de cada pessoa nas decisões e atitudes do dia a dia. Antes de agir, o bispo propôs uma pergunta que pode orientar a caminhada pessoal e pastoral: “Jesus faria isso no meu lugar?”. Um questionamento simples, mas que ajuda a avaliar se as escolhas e os gestos estão de acordo com o Evangelho.
Ser sinal do céu aqui e agora
Ao falar da esperança cristã, Dom Valdir lembrou que a promessa do céu não deve afastar os fiéis dos desafios do presente. Ao contrário, a expectativa da vida eterna precisa impulsionar a construção de relações mais fraternas e de uma sociedade em que a dignidade de todos seja respeitada.
“Enquanto o céu não chega, a gente tem que ser sinal do céu aqui e agora”, afirmou. Assim, a imagem do banquete deixa de ser apenas uma referência à realidade futura e se transforma em compromisso para o presente: fazer da comunidade um lugar de acolhida, partilha e proximidade.
A história da Paróquia Maria, Mãe da Igreja oferece exemplos concretos desse caminho. Desde a mobilização para adquirir o terreno e construir a primeira igreja, a participação dos moradores foi decisiva para que o sonho se tornasse realidade. A trajetória também foi marcada pela dedicação de padres, lideranças e fiéis que contribuíram para a organização e o desenvolvimento da vida pastoral.
Uma história construída em comunidade
No início, a paróquia estava organizada em torno de cinco comunidades: São Sebastião, Nossa Senhora de Fátima, São Francisco de Assis, Nossa Senhora da Misericórdia, Santa Isabel e Nossa Senhora da Visitação. Esta última surgiu em uma realidade ligada à Vila Acalanto, instituição que acolhia crianças de até quatro anos e era administrada pela Congregação de Nossa Senhora da Visitação.
Em 2006, por decreto de Dom Emílio Pignoli, a paróquia foi dividida para atender melhor às necessidades pastorais da região. A Paróquia Maria, Mãe da Igreja permaneceu com as comunidades São Sebastião, Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora da Misericórdia.
Ao longo dessa caminhada, estiveram à frente da paróquia, como párocos ou administradores paroquiais, padre João Carlos Pancionato, já falecido, padre José Hercílio Pessoa de Oliveira e, atualmente, padre Otávio Augusto Oliveira de Freitas. A memória dos 35 anos, porém, não se limita aos nomes e às funções: é também a história de tantos moradores e agentes pastorais que ofereceram tempo, trabalho e dedicação à construção da comunidade.
Durante a celebração jubilar, essa trajetória foi recordada também por meio de objetos utilizados nas primeiras celebrações e de imagens das comunidades que fazem parte da história paroquial, apresentados no momento do ofertório. Sinais concretos de uma caminhada que começou com encontros de oração nas casas e ganhou forma com a participação de muitas pessoas.
A data de criação da paróquia foi celebrada em 3 de novembro, mas a comunidade também prepara um momento festivo para reunir os paroquianos e celebrar a história construída ao longo dessas décadas. No dia 28 de novembro, haverá confraternização no salão paroquial da comunidade matriz, com barracas, show de prêmios e outras atividades.
Ao completar 35 anos, a Paróquia Maria, Mãe da Igreja olha para o caminho percorrido e renova o compromisso com aquilo que deu origem à sua história: uma comunidade que se reúne, trabalha e caminha unida. O convite de Dom Valdir aponta para os próximos passos: manter as portas abertas, aproximar-se de quem está distante e fazer da vida paroquial um sinal concreto do Reino de Deus.

















