Retiro do Clero 2026: Dez cordas, um só canto
O arcebispo chegou com cordas amarradas aos dedos. Era o fim da tarde de segunda-feira, 28 de setembro, e o calor ainda pesava sobre as árvores do Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba. Diante do clero da Diocese de Campo Limpo, Dom Pedro Brito Guimarães ergueu as mãos. Os fios não eram enfeite: eram a harpa de dez cordas do Salmo 144, que ele prometia tocar com o presbitério nos dias seguintes.
Recebido com aplausos, o arcebispo de Palmas devolveu a gentileza com um trocadilho: toda vez que alguém bate palmas, disse, ele leva para a sua arquidiocese.
Até a manhã de quinta-feira, 1 de outubro, 104 padres, acompanhados por Dom Valdir e pelo bispo emérito Dom Luiz, deixaram para trás as agendas das paróquias para rezar, celebrar e conviver sob o tema “Presbítero, guardião-guia espiritual de Jesus em uma Igreja sinodal, contemplativa na oração e na ação em Campo Limpo”.

Diminuir a velocidade
Dom Valdir José de Castro, ssp, bispo diocesano, deu o tom da acolhida. Ele saudou Dom Luiz Antônio Guedes, bispo emérito, e lembrou a agitação que marca a vida diocesana: os trabalhos pastorais, as urgências, os compromissos que se acumulam. "Agora é o momento de parar. Não parar, mas diminuir a velocidade", disse. "É um tempo de graça que o Senhor nos dá".
O bispo também revelou aos padres um dado que muitos desconheciam. Dom Pedro Brito é autor de canções que as comunidades cantam sem saber de onde vieram. Músicas como "Eis-me Aqui Senhor" e "Por uma grande missão" são amplamente conhecidas e cantadas nas comunidades da Diocese de Campo Limpo e em todo o Brasil. Dom Valdir chegou a pedir à equipe de música que buscasse no blog do arcebispo algumas delas para os dias de retiro.

O pregador poeta
Nascido em 1954, em Eliseu Martins, no Piauí, Dom Pedro foi ordenado padre em 1986 e foi professor e reitor de seminário em Teresina. Em Roma, obteve o mestrado (1988–1990) e o doutorado em Teologia Dogmática (1992–1995), com tese sobre a compreensão teológica dos sacramentos. Em 2002, tornou-se bispo de São Raimundo Nonato (PI). Desde 2010 conduz a Arquidiocese de Palmas, no Tocantins, e, desde junho deste ano, acumula a administração apostólica da Diocese de Porto Nacional.
O ano de 2026, contou ele, é “o ano dos retiros”. O de Itaici foi o sétimo que pregou ou viveu neste ano, incluindo o seu próprio, de oito dias, no método inaciano.

Um canto velho, um canto novo
A primeira pregação começou com música. Dom Pedro puxou o antigo hino A nós descei, divina luz e pediu que os padres não ouvissem apenas a voz dele, mas tentassem escutar a voz de Deus no canto. Depois, lançou uma pergunta que ficaria ecoando: se essa oração for atendida, se o amor de Jesus de fato se acender na alma, o que será de mim?
Mais tarde, ele explicaria o gesto. Um cântico é novo não pelo ano em que foi composto, mas pela intensidade com que se canta. E o maestro, insistiu, é o Espírito Santo.
O Salmo 144 conduziu a meditação de abertura. Nele, Davi bendiz o Deus que adestra suas mãos para a luta e seus dedos para a guerra. Rochedo, fortaleza, refúgio, libertador, escudo: os padres foram listando, com suas Bíblias abertas, os nomes que o salmista dá a Deus. “Fazer retiro é batalhar”, resumiu o pregador. Como diante de Golias, só se vence a batalha com a força que vem do alto.
O mesmo salmo lembra que o ser humano é como um sopro e seus dias passam como sombra. O retiro, propôs Dom Pedro, é esse adestramento: pedir que Deus dê consistência ao que é frágil.
Houve ainda um alerta. Davi pede para ser livre das mãos do estrangeiro, cuja boca fala mentira e cuja mão é de falsidade. Para o arcebispo, esse estrangeiro mora dentro: é tudo aquilo que é alheio à identidade do padre, a mentira e a falsidade que se importam da sociedade e se instalam no ministério como se dele fizessem parte.
Dez cordas
O salmo termina com duas promessas: cantar a Deus um cântico novo e tocar para ele a harpa de dez cordas. Não um violão de seis, brincou o pregador. Cada corda seria um momento do retiro, e nem todas soaram como pregação.
Cada corda vinha acompanhada de textos bíblicos para a meditação pessoal. A proposta era afinar as dez cordas da vida, e a primeira orientação foi justamente uma rota de afinação do instrumento. Uma pergunta atravessou os quatro dias: que corda da minha vida presbiteral precisa hoje ser afinada? E com qual diapasão?
Na tradição inaciana que marca seus retiros, Dom Pedro insistiu também na necessidade de reordenar os afetos.
Na noite de terça-feira, ao ar livre, os padres percorreram as estações da via-sacra no lado externo da casa de retiros. Era uma via-sacra existencial: a cada estação, um padre diferente falou de sua própria vida, associando sofrimentos e desafios pessoais aos passos da Paixão de Jesus.
Foi um dos momentos mais emocionantes do retiro. Irmãos que se encontram com frequência, nas reuniões e celebrações da Diocese, descobriram ali dores e histórias que até então desconheciam. Na tarde de quarta, os padres viveram um momento penitencial entre eles.
A última noite do retiro foi de vigília, simples, mas carregada de sentido. Das 21h de quarta às 7h de quinta, a cada hora um grupo de padres se revezou diante do Santíssimo Sacramento, rezando pelo bem espiritual e pastoral da Diocese. A oração ganhou peso especial porque a Igreja de Campo Limpo está em plena elaboração do 7º Plano Diocesano de Evangelização.
Às 7h, Dom Pedro encerrou a vigília lembrando que rezar pela Diocese deve ser um hábito constante. E pediu que os padres não a vissem apenas como instituição: a diocese é feita de todos os batizados que formam essa porção do Povo de Deus. Para falar da vida como um instrumento a ser afinado, Dom Pedro recorreu até à música popular brasileira. Citou Serra do Luar, de Walter Franco, canção que descreve o viver como um afinar constante, de dentro para fora e de fora para dentro.

O manual de instruções
A missa de encerramento, na manhã de quinta-feira, foi presidida por Dom Valdir. A homilia coube a Dom Pedro, que começou por um objeto do cotidiano. Quem compra um celular, um remédio ou uma cadeira recebe junto um manual de instruções, que quase ninguém lê. O resultado são aparelhos caros usados pela metade.
Com a fé, sugeriu o arcebispo, pode acontecer o mesmo. O Evangelho é o manual de construção de quem quer ser cristão, e quem o lê bem não se cansa. No centro dele estão os gestos de Jesus: cuidar dos doentes, acolher os pecadores e os discriminados, sentar-se à mesa com eles.
Era 1º de outubro, memória de Santa Teresinha do Menino Jesus, e o pregador apontou um segundo manual: a vida da carmelita de Lisieux. Padroeira das missões sem jamais ter deixado o convento, ela descobriu sua vocação no coração da Igreja: ser o amor. A missão, lembrou ele aos padres, é obra de Deus, que não desiste deles.

Um ano depois
No mesmo mosteiro, em agosto de 2025, o clero havia meditado com Dom José Otácio Oliveira Guedes, bispo auxiliar de Belo Horizonte, sobre O mapa da construção do discípulo, a partir do Evangelho de Marcos. Se no ano passado os padres revisitaram o caminho do seguimento, desta vez foram convidados a afinar o instrumento.
Para o padre Luciano Borges Basílio, coordenador da Pastoral Presbiteral, os dias em Itaici tiveram um sentido de retorno. “Foi uma oportunidade de voltar às origens do nosso chamado vocacional”, resumiu.
Quando a vigília terminou, às 7h de quinta-feira, o sol já voltava a esquentar as árvores de Itaici. Poucas horas depois, após o almoço, os padres tomaram o caminho de volta às paróquias, onde os esperavam as mesmas agendas, as mesmas urgências, o mesmo povo.
O instrumento, porém, já não era o mesmo. Em cada um, alguma corda tinha sido revista, apertada, posta de novo no tom. O hino do primeiro dia também continuava igual. A proposta de Dom Pedro era que, daí em diante, o clero de Campo Limpo o cantasse como cântico novo.





































