Uma tenda em caminho

A aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para o período de 2026 a 2032 representa muito mais do que a conclusão de um documento pastoral. Trata-se da confirmação de um caminho que a Igreja vem percorrendo nos últimos anos, marcado pela escuta, pelo discernimento comunitário e pelo desejo de responder aos desafios do tempo presente com fidelidade ao Evangelho.
As Diretrizes nasceram de um longo processo de reflexão iniciado em 2022 e amadurecido à luz do Sínodo sobre a Sinodalidade. Sua aprovação unânime pelos bispos do Brasil demonstra a força de uma Igreja que busca caminhar unida, sem perder a riqueza de suas diferentes realidades locais. Mais do que estabelecer metas ou programas, as DGAE oferecem uma visão de Igreja para os próximos anos.
Talvez a imagem mais significativa apresentada pelo documento seja a da “tenda”. Durante muito tempo, a ação evangelizadora foi representada pela figura da casa, sólida e acolhedora. Agora, a tenda torna-se o símbolo de uma Igreja que permanece firme em sua fé, mas que também está disposta a mover-se, a ampliar seus espaços e a acolher aqueles que ainda estão à margem. A tenda não é uma estrutura fechada; ela cresce conforme chegam novas pessoas e novas realidades. É uma imagem profundamente bíblica e profundamente sinodal.
Essa mudança de perspectiva encontra forte sintonia com o momento vivido pela Diocese de Campo Limpo. Enquanto a Igreja no Brasil concluía a elaboração das novas Diretrizes, nossa Diocese intensificava a escuta do Povo de Deus por meio do subsídio preparatório para o 7º Plano Diocesano de Evangelização. Em ambos os processos encontramos a mesma convicção: ninguém evangeliza sozinho e ninguém deve ser excluído do discernimento sobre os rumos da missão.
As palavras que orientam o Sínodo, comunhão, participação e missão, também estão no centro da caminhada diocesana. Não por acaso, elas aparecem como eixo fundamental da construção do novo Plano de Evangelização. A comunhão nos recorda que somos um só corpo em Cristo, chamados a superar divisões e a fortalecer os laços fraternos entre paróquias, comunidades, pastorais, movimentos e novas formas de organização eclesial.
A participação, por sua vez, convida cada batizado a reconhecer sua corresponsabilidade na vida da Igreja. As novas Diretrizes insistem no protagonismo dos leigos e leigas, na valorização dos organismos de participação e no fortalecimento dos espaços de escuta e discernimento. É exatamente esse espírito que anima o processo vivido em nossa Diocese, onde todos os diocesanos foram convidados a contribuir com reflexões, sugestões e percepções sobre os desafios da evangelização em nosso território.

Essa valorização da participação não diminui a importância dos ministérios ordenados, mas reforça a compreensão de que toda a Igreja é missionária. Cada vocação possui um papel específico na construção do Reino de Deus. Bispos, presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e leigos são chamados a atuar de forma complementar, colocando seus dons a serviço da comunidade. A sinodalidade, nesse sentido, não elimina responsabilidades, mas fortalece a colaboração entre todos os membros do Corpo de Cristo.
Por fim, a missão continua sendo o horizonte que dá sentido a toda a caminhada. Uma Igreja sinodal não existe para si mesma. Ela escuta para anunciar melhor, discerne para servir melhor e se organiza para evangelizar melhor. Nesse sentido, as Diretrizes reafirmam a necessidade de uma Igreja em saída, comprometida com a opção preferencial pelos pobres, atenta às transformações culturais e capaz de dialogar com as novas gerações e com os desafios do mundo contemporâneo.
O documento também aponta questões que já fazem parte da realidade pastoral de nossas comunidades. A presença crescente das tecnologias digitais e da inteligência artificial, a formação de lideranças comprometidas com a ética e o bem comum, o fortalecimento da participação dos jovens e a necessidade de uma evangelização cada vez mais próxima das pessoas são temas que desafiam toda a Igreja e que certamente estarão presentes nas reflexões do 7º Plano Diocesano.
Outro aspecto relevante das novas Diretrizes é a atenção dedicada à formação permanente dos discípulos missionários. Em um contexto social marcado por rápidas mudanças culturais, pela fragmentação das relações humanas e pela disseminação de informações nem sempre comprometidas com a verdade, torna-se indispensável investir em processos formativos sólidos. Evangelizar exige testemunhas capazes de unir fé e vida, espiritualidade e compromisso social, oração e ação missionária.
As DGAE também reforçam a importância das pequenas comunidades e dos espaços de convivência fraterna. Em meio às grandes cidades e aos desafios da vida urbana, cresce a necessidade de ambientes onde as pessoas possam experimentar a proximidade, a escuta e o acompanhamento pastoral. A experiência comunitária continua sendo um dos caminhos mais eficazes para fortalecer a fé, promover a participação e despertar novas lideranças para a missão.
Nesse contexto, ganha destaque a dimensão da caridade como expressão concreta da evangelização. Anunciar o Evangelho implica também cuidar dos que sofrem, defender a dignidade humana e promover a cultura do encontro. A missão da Igreja não se limita ao anúncio verbal da Palavra, mas se manifesta igualmente por meio de gestos concretos de solidariedade, acolhida e promoção da justiça. As novas Diretrizes recordam que a evangelização e o compromisso social caminham inseparavelmente unidos.
As novas Diretrizes recordam ainda que a sinodalidade não é apenas um método de trabalho, mas um modo de ser Igreja. Trata-se de aprender continuamente a caminhar juntos, reconhecendo que o Espírito Santo fala por meio de todo o Povo de Deus. Por isso, a escuta não é uma etapa passageira, mas uma atitude permanente.
Essa compreensão exige conversão pastoral. Caminhar juntos pressupõe disposição para rever práticas, superar autorreferencialidades e abrir-se às inspirações do Espírito. Significa reconhecer que a missão da Igreja se fortalece quando há diálogo, confiança mútua e participação efetiva. Trata-se de um processo contínuo, que demanda paciência, humildade e perseverança, mas que produz frutos duradouros para a vida e a missão das comunidades.
Ao acolher as DGAE e avançar na elaboração de seu 7º Plano Diocesano de Evangelização, a Diocese de Campo Limpo reafirma sua disposição de ser uma Igreja que caminha com seu povo, escuta suas alegrias e sofrimentos, reconhece os sinais dos tempos e se coloca a serviço da missão. Como a tenda do encontro, somos chamados a permanecer firmes na fé, sustentados pelas virtudes da fé, da esperança e da caridade, mas sempre prontos para alargar nossas fronteiras e acolher todos aqueles que Deus continua a chamar.
Assim, as novas Diretrizes não representam apenas um documento para ser estudado. Elas são um convite para que nossa Igreja Particular continue construindo, com comunhão, participação e missão, uma presença evangelizadora cada vez mais viva, próxima e transformadora em nosso território diocesano. Mais do que orientar ações pastorais, elas inspiram uma renovação do modo de viver a fé e de testemunhar o Evangelho. Ao assumir esse horizonte, a Diocese de Campo Limpo une-se à caminhada de toda a Igreja no Brasil, renovando seu compromisso de anunciar Jesus Cristo com esperança, criatividade missionária e profunda confiança na ação do Espírito Santo.




