Comunhão, discernimento e missão digital marcam conferência da Comissão para a Comunicação

Mais de 1.500 agentes da Pastoral da Comunicação (Pascom), representantes dos 19 regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), participam, entre os dias 24 e 26 de julho, do 9º Encontro Nacional da Pascom, realizado no Santuário Nacional de Aparecida. Com o tema “Evangelização em Movimento: a dimensão pastoral da comunicação”, o encontro promove dias de formação, espiritualidade e partilha de experiências, convidando os comunicadores a aprofundarem sua identidade missionária e a refletirem sobre os desafios e as possibilidades da evangelização em um mundo cada vez mais conectado.
Na noite de sexta-feira, 24 de julho, a segunda conferência do encontro reuniu os três bispos que integram a Comissão Episcopal para a Comunicação Social da CNBB: Dom Valdir José de Castro, bispo da Diocese de Campo Limpo e presidente da Comissão; Dom Edilson Soares Nobre, bispo da Diocese de Guarabira (PB); e Dom Amilton Manoel da Silva, bispo da Diocese de Guarapuava (PR). Em um diálogo marcado pela complementaridade das reflexões, os bispos abordaram os desafios e as perspectivas da comunicação evangelizadora, conduzindo os participantes a uma profunda reflexão sobre a missão da Pascom na Igreja e na sociedade contemporânea.

Abrindo a conferência, Dom Valdir José de Castro conduziu a reflexão para a dimensão mais essencial da comunicação: a pessoa humana. Para o bispo, antes de qualquer técnica ou ferramenta tecnológica, comunicar é um ato profundamente humano.
Ao apresentar Jesus Cristo como o comunicador por excelência, Dom Valdir destacou que sua comunicação ia muito além das palavras. Ela acontecia por meio dos gestos, do olhar, da escuta, da proximidade e da compaixão. Inspirado pelas mensagens do Papa Francisco sobre a comunicação, reforçou que o comunicador cristão é chamado a “ir e ver” a realidade, aproximar-se das pessoas, escutá-las com o “ouvido do coração” e estabelecer um diálogo marcado pela cordialidade e pela verdade.
Outro ponto central de sua conferência foi o convite à vivência da comunhão. Segundo ele, a unidade na Igreja não significa uniformidade de pensamentos, mas a capacidade de caminhar juntos mesmo diante das diferenças. Para Dom Valdir, comunicar também é construir pontes e favorecer uma cultura do encontro, onde o diálogo prevalece sobre as divisões.
Na sequência, Dom Edilson Soares Nobre conduziu os participantes por um percurso histórico da comunicação eclesial no Brasil. Recordou que comunicar o Evangelho sempre fez parte da missão da Igreja e citou o trabalho dos primeiros missionários, especialmente o padre José de Anchieta, co-padroeiro do Brasil, que elaborou gramáticas e aprendeu as línguas indígenas para anunciar a Boa Nova de forma compreensível aos povos originários.

O bispo também recordou a evolução dos meios de comunicação católicos ao longo das décadas, passando pelo surgimento das editoras, jornais e emissoras de rádio, até chegar aos atuais desafios da comunicação digital.
Mais do que revisitar a história, Dom Edilson lançou um apelo aos agentes da Pascom: que a pastoral não se limite à cobertura de celebrações e eventos. Segundo ele, a comunicação da Igreja deve revelar seu “rosto samaritano”, tornando visível a presença junto aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados e a todos aqueles que vivem situações de dor e angústia. Para isso, ressaltou que espiritualidade e compromisso social caminham juntos.
O bispo também chamou atenção para a necessidade do discernimento diante do grande volume de informações produzido diariamente pelos meios de comunicação. Em sua avaliação, a missão da Igreja não é simplesmente reproduzir discursos, mas contribuir para a formação de uma opinião pública crítica, iluminada pelo Evangelho e pela doutrina da Igreja.
Encerrando a conferência, Dom Amilton Manoel da Silva voltou o olhar para aquele que definiu como um dos maiores desafios missionários da atualidade: o continente digital.

Ao afirmar que “a comunicação é missão e a missão é comunicação”, o bispo recordou que a iniciativa missionária nasce do próprio Deus, a Missio Dei, e que a Igreja, por sua própria natureza, existe para evangelizar.
No ambiente digital, explicou, é preciso evitar dois extremos: a demonização das redes sociais e a sua idealização. Para Dom Amilton, a presença da Igreja nas plataformas digitais deve ser equilibrada, ética e profundamente comprometida com a promoção da vida e da comunhão.
Como síntese de sua reflexão, apresentou um decálogo para a missão digital, destacando princípios como não ter medo da tecnologia, reconhecer que nenhuma máquina substitui a riqueza das relações humanas e compreender que comunicar significa, antes de tudo, compartilhar a vida e não apenas transmitir informações. Também alertou para o risco do autorreferencialismo e reforçou a importância de que toda ação comunicativa esteja em sintonia com o bispo e com a comunidade eclesial local.
Ao final da conferência, os participantes puderam dirigir perguntas aos três bispos e também ao prefeito do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé, o jornalista Paolo Ruffini, que havia realizado a conferência de abertura do encontro. O diálogo ampliou ainda mais as reflexões sobre os desafios da evangelização em uma sociedade marcada pelas rápidas transformações culturais e tecnológicas.
Mais do que apresentar conceitos, a conferência evidenciou que a comunicação na Igreja nasce do encontro, da escuta e da missão. Em diferentes perspectivas, humana, histórica e missionária, os três bispos convergiram em um mesmo ponto: comunicar o Evangelho exige muito mais do que dominar ferramentas; requer testemunho, discernimento, comunhão e um coração capaz de se deixar tocar pela realidade do outro.
Assim, o 9º Encontro Nacional da Pascom reafirma sua vocação de fortalecer uma rede de comunicadores comprometidos com uma Igreja em saída, preparada para anunciar a Boa Nova com criatividade, competência e, sobretudo, humanidade. Entre conferências, oficinas e momentos de espiritualidade, Aparecida segue sendo o lugar onde a comunicação se encontra com a missão e onde evangelizar continua sendo, acima de tudo, um ato de proximidade.





