Entrevista Exclusiva

Mons. Valdir, bispo eleito: surpresa e primeiras impressões

O suspense pelo nome do terceiro bispo diocesano teve fim no dia 14 de setembro com a nomeação de Mons. Valdir José de Castro, ssp. Leia a entrevista que gentilmente concedeu a este portal.
 |  Andrea Rodrigues  |  Diocese
Imagem: Pe. Rodrigo Antonio da Silva

“Um bispo que dará importância ao diálogo”, é o que os diocesanos de Campo Limpo podem esperar do terceiro bispo eleito para a Diocese. Sua ordenação episcopal e posse estão marcadas para a mesma cerimônia em 26 de novembro, às 16h, na Catedral Sagrada Família.

De sorriso fácil e simpatia singular, Monsenhor Valdir José de Castro ou padre Valdir, como gosta de ser chamado, concedeu entrevista ao Setor Comunicação da Diocese e falou abertamente sobre sua vida, como recebeu o anúncio para a nova missão e sobre ser o primeiro bispo Paulino da história. Compartilhou suas primeiras impressões acerca da Diocese, suas perspectivas para o ministério episcopal e mesmo o caminho vocacional percorrido até ser eleito o superior geral da congregação da qual é membro, a Pia Sociedade de São Paulo.

Vamos começar falando um pouco da sua família, pode nos contar sobre seus pais e irmãos?

Sou filho de Therezinha Zuccolo de Castro e Francisco Pereira de Castro, já falecidos. Minha mãe faleceu há apenas dois meses. Quando terminei meu mandato em Roma e voltei ao Brasil, ela já muito doente, faleceu quatro dias depois da minha chegada.  Tive a graça de estar com ela por esses dias. Somos quatro irmãos, todos os outros três são casados, dois moram em Santa Bárbara do Oeste e um mora em Ciudad del Este, no Paraguai.

Nasci e cresci em Santa Bárbara do Oeste, que pertence à Diocese de Piracicaba, e ali tive uma infância feliz em um lar católico. Meus pais eram muito religiosos e não só: eles eram participantes da comunidade.  Foram Ministros Extraordinários da Eucaristia, e ajudavam na pastoral social, minha mãe ainda cantava no coral, a Igreja para nós era um pouco a extensão da casa e a nossa casa uma extensão da Igreja.

Aos 15, 16 anos eu fazia um curso técnico, chamado de Açúcar e Álcool, estava me encaminhando para a área química, portanto. Mas é claro que desde criança já passava pela minha cabeça ser padre. Muito jovem comecei a participar dos encontros vocacionais e grupo de jovens, sempre discreto e em silêncio discernindo sobre minha vocação. Com cinco, seis anos de idade eu me recordo de brincar de celebrar missas. Meus pais em tempo algum me direcionaram para isto ou aquilo, mas ficaram muito felizes quando aos 17 anos eu tomei a decisão de ir para o seminário, em 05 de fevereiro de 1979.

Podemos dizer que sua história vocacional começou bem cedo?

Sim, brincar de celebrar missa era, por assim dizer, uma brincadeira corriqueira e já nesta idade estava sentado no banco da igreja prestando atenção em tudo. Houve um episódio interessante: quando eu tinha 10 anos, um padre, que era vocacionista dos Paulinos, visitou a minha casa e pediu para meu pai que me deixasse ir para o seminário. Meu pai, claro, achou que eu era ainda muito menino e disse não, me lembro dele dizer: “Neste momento ele não vai, mas se ele tiver mesmo vocação quando ele ficar mais velho decidirá por ir”. Meu pai foi sábio e mais tarde, de fato, me decidi por este caminho.

Posso dizer que me decidi, de fato, quando participei da ordenação de um sacerdote paulino, padre Antônio Carlos, incardinado na diocese de Piracicaba e que está atualmente em Rio Claro. Naquela ordenação eu senti fortemente o meu chamado.

Quando eu participava de encontros vocacionais, um dos encontros aconteceu no Seminário de Filosofia na cidade de Campinas, região próxima a Santa Bárbara. Era um domingo, e eu me lembro porque neste dia chegava a notícia do falecimento do Papa Paulo VI, 06 de agosto de 1978.

Terminado o encontro formativo, todos os vocacionados participaram da celebração eucarística e sabe quem presidiu a missa nesta ocasião? Padre Guedes, hoje Dom Luiz Antônio Guedes, bispo desta Diocese, para mim uma feliz coincidência.

Este foi o último encontro vocacional que participei antes de ingressar no Seminário dos Paulinos, este encontro ficou na minha memória. Quando a eleição e minha nomeação para esta Diocese aconteceu, imediatamente me recordei disto e até falei com Dom Luiz a respeito depois de nomeado. Para mim, uma coincidência, providência, não sei, muito grande. Ele estava lá no início do meu caminho vocacional e hoje me recebe aqui no início do meu episcopado.

Todos os vocacionados participaram da celebração eucarística e sabe quem presidiu a missa nesta ocasião? Padre Guedes, hoje Dom Luiz.

Mons. Valdir José de Castro

Das duas paróquias que havia na cidade na época, em qual participava com sua família?

Nossa Senhora Aparecida. Naquela época eram duas paróquias, uma dedicada a Santa Bárbara e a outra a Nossa Senhora Aparecida. Hoje a cidade tem 12 paróquias e o padre da minha paróquia na época era um sacerdote Jesuíta. O carisma da comunicação dos paulinos me chamou a atenção.

Pode nos contar sobre sua trajetória desde o seminário?

Depois de aceito, fui encaminhado para o seminário dos Paulinos na cidade de São Paulo, que na época ficava na Rodovia Raposo Tavares, onde também existia a gráfica, que agora está em Cotia.  Quando entrei na gráfica e senti o cheiro dos livros, imediatamente pensei: é aqui que quero ficar. Identifiquei minha vocação e depois de conhecer mais a fundo a congregação, o fundador, o Bem-Aventurado Tiago Alberione, sua vida, suas obras, a Família Paulina (cinco congregações, quatro institutos e uma associação de cooperadores paulinos) não tive dúvidas.

Entrei no noviciado, depois do colegial, em Caxias do Sul – Rio Grande do Sul e lá mesmo na Universidade de Caxias do Sul cursei a filosofia. Terminada a filosofia, voltei para São Paulo, onde estudei a Teologia. Um ano no Pio XI e conclui no ITESP (Instituto São Paulo de Estudos Superiores).

Depois da ordenação sacerdotal, que aconteceu em 12 de dezembro de 1987 na minha paróquia de origem, fui nomeado como Formador dos aspirantes da Congregação e fiquei quase três anos nesta função aqui em São Paulo quando fui então mandado para Roma para estudar e tirar a licença em Teologia com especialização em espiritualidade na Pontifícia Universidade Gregoriana; três anos até voltar para o Brasil, em 1994.

Fiquei um ano em São Paulo, quando me enviaram novamente para Caxias do Sul, onde fui nomeado Superior da Comunidade. Eu era um padre jovem ainda, 33 anos. Lá tinha também a escola e o seminário menor. Fiquei como Mestre do Noviciado por quatro anos. Foi neste período que eu vi que era possível estudar jornalismo; fiquei em Caxias por um total de seis anos e cursei jornalismo neste período na Universidade de Caxias do Sul.

Quando terminou meu período como superior, eu também já havia terminado a faculdade. Interessante que coincidiu tudo, foi o fim de várias atividades. Voltei para São Paulo e me deram a função de ser Diretor Geral do Apostolado, Diretor Geral da Paulus, o que incluía a Organização Apostólica, sempre ligado ao provincial e ao governo provincial. Eu era um delegado para o apostolado e foi neste período que eu vi a necessidade de fazer o mestrado em comunicação, cursei então Cásper Líbero.

Durante o período em que eu estava responsável pelo apostolado, o Superior Geral me telefonou e pediu para eu ir para a Argentina para ser Superior Provincial. A Província é um conjunto de países, neste caso Argentina, Chile e Peru. A casa provincial ficava em Buenos Aires, onde eu ficava sempre viajando para o Chile e o Peru. Eu ficava neste triângulo, foi neste período que eu conheci o Papa Francisco, na época o Cardeal Bergoglio.

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Pe. Valdir José de Castro durante audiência do Papa com a Família Paulina. — Imagem: Vatican Media.

Nos fale sobre o então Cardeal Bergoglio

Posso dizer que ele já exprimia em seus gestos e ações esse jeito simples e amoroso que ele transparece hoje como sucessor de Pedro, muito acessível. Tivemos alguns encontros de contato como a gente tem com o bispo local. Posso dizer que ele é de fato tudo isso que nós vemos.  Muito preocupado com os aspectos da Igreja, com toda a vida eclesial evidentemente, mas muito voltado para os necessitados, os pobres, um bispo muito despojado.

Era comum, pela proximidade de nossa casa da sede do arcebispado, avistar ele passeando pela cidade, utilizando o metrô. O víamos nos ônibus, levava de fato, mesmo já em um alto cargo, uma vida muito simples, tendo contato com as pessoas, qualquer delas que se aproximasse. Um pastor que tinha uma posição muito firme em relação à injustiça e ao sofrimento das pessoas. Quando da eleição dele para substituir Bento XVI, ao assistir a cena, pensei: Foi o Espírito que suscitou essa grande figura dentro do papado.

De volta ao Brasil, após quatro anos e meio de América Latina

Quando voltei da Argentina, eu fui enviado para a Faculdade Paulus de Comunicação, a FAPCOM. Estava dando aula e comecei o doutorado na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, em Comunicação e Semiótica. Dois anos mais tarde me pediram para ser Provincial do Brasil.

Continuei na direção da faculdade e Provincial, só não era mais possível dar aulas, mas trabalhava colegialmente com um diretor acadêmico e um diretor administrativo.  Com essa ajuda nas questões da faculdade, vivi ali esse período tendo contato com os alunos, o que eu sempre gostei e me ajudava muito, até que três anos depois eu participei do Capítulo Geral.

O que é o Capítulo Geral?

O Capítulo Geral acontece a cada seis anos, em Roma, na Itália, e participam representantes de todos os países. Os Paulinos estão presentes nos cinco continentes.

Em linhas gerais é como se fosse um grande sínodo que dura quase um mês, onde não só escolhemos o Superior Geral ou se elege o Conselho, no Capítulo Geral organizamos um programa ou projeto para os próximos seis anos.

Como se fosse um grande plano pastoral?

Isto mesmo, um plano pastoral geral que depois cada país aplica dentro da sua realidade. Neste Capítulo Geral, em que fui com outros dois Paulinos representando a província brasileira, fui eleito Superior Geral e acabei ficando por lá.

Como e quantos anos foram como Superior Geral?

Fiquei no cargo por sete anos. O normal são seis anos, só que coincidiu com a pandemia e o Capítulo Geral não aconteceu na data estipulada. Com a Santa Sé de acordo, o Capítulo foi suspenso por duas vezes até que o conseguimos realizar no mês de junho de 2022, há dois meses, quando eu deixei de ser o Superior Geral.

Monsenhor Valdir
Mons. Valdir durante aniversário de eleição de superior geral da congregação. — Imagem: Paulinos/Divulgação.

Depois do Capítulo e de volta ao Brasil, foi enviado para onde?

Voltei para a FAPCOM, e eu estava começando organizar cursos de extensão e já começava a organizar minhas aulas. Pretendia, neste período, me dedicar ao magistério, estava me sentindo leve e tinha consciência de que o ciclo de sete anos em Roma estava completo.

O período da pandemia do coronavírus foi muito pesado para o mundo e para nós também. Durante esse período, os Paulinos perderam 40 irmãos, principalmente na Itália, Espanha e Estados Unidos, isso foi um choque grande para a Congregação.

Quando da eleição dele para substituir Bento XVI, ao assistir a cena, pensei: foi o Espírito que suscitou essa grande figura dentro do papado.

Mons. Valdir José de Castro

São muitas experiências e vivências, pode nos contar das suas experiências paroquiais?

Tive muitas experiências em paróquias, nas dioceses por onde eu estive. Nunca com o título de pároco, assumindo uma comunidade, mas ajudei muito, por exemplo, em Santa Bárbara d'Oeste, na minha paróquia de origem, na Vila Mariana, em paróquias vizinhas à nossa casa na Itália e em tantos outros lugares. Sempre tive contato com o povo, com os sacramentos e com o clero diocesano.

Vamos à nomeação, como recebeu esta notícia? Foi uma surpresa?

Como disse, eu estava me organizando na volta ao Brasil e fui enviado para FAPCOM, não esperava nada assim quando recebi o pedido. Não imaginava, foi de fato uma surpresa. Os Paulinos não têm tradição em nomeação episcopal. Em 108 anos de história é a primeira vez que um Paulino é nomeado bispo.

Eu, de fato, estava me organizando para a vida acadêmica na FAPCOM. Eu sempre gostei desse campo acadêmico, sempre me fascinou, essa questão do refletir. Para mim, a comunicação não é só atividade, não é só técnica, é pensar. É pensar na comunicação, por onde ela está indo, por onde ela vai, que ser humano ela está formando.

E sim, a nomeação me pegou de surpresa.  Quando a nunciatura me chamou eu não respondi de imediato. Fui digerindo e refletindo até entender a proposta. Até entender, depois de muito rezar, que um Paulino também pode exercer esse ministério.

Depois senti o frio na barriga quando fui verificar informações sobre a Diocese de Campo Limpo. Me assustei com o número de paróquias, habitantes, padres, mas percebi que existe uma organização e fui assimilando. Venho para me inserir neste caminho que já vem sendo trilhado, e tenho certeza que eu também vou dar a minha contribuição. A partir do caminho aberto quero entrar, animar, conhecer e caminhar junto.

Como é para o senhor ser o primeiro Paulino eleito Bispo na história da Congregação?

Um bispo diocesano tem as suas qualidades e tem também a sua forma de conduzir o seu rebanho. Assim como um bispo Carlista ou Franciscano, ele leva a sua espiritualidade. Eu acredito que exercerei esse ministério como todo bispo, buscando ser um pastor e, claro, trazendo comigo essa questão da comunicação, o carisma dos Paulinos.

Desejo contribuir, sabendo, claro, que existem várias pastorais, olhando para todas elas e também a da comunicação, que é do meu carisma. Penso que não existe uma pastoral de maior importância ou necessidade dentro da Igreja; todas são importantes.

O que os diocesanos podem esperar a partir do carisma Paulino?

Um bispo que dará importância à comunicação, uma comunicação de diálogo. Veja: muitos conflitos que acontecem nas famílias, nas comunidades, em tantos ambientes acontecem por falta de diálogo. Uma comunicação no sentido de criar relação, interação, no sentido que nos leva a viver em harmonia.

Pensemos: qual é o modelo primeiro de comunicação? É a Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo, que vive em contínua comunicação e comunhão de amor, um amor que une. A Santíssima Trindade é o primeiro modelo de comunicação que se abre a nós para que a gente participe desta união das três pessoas e também nos abramos aos irmãos e irmãs. A Igreja tem à frente esse modelo, a Trindade.

Depois a Igreja tem os outros santos, São Paulo, que é o patrono dos Paulinos. Ele é um grande comunicador, é verdade, mas ele escrevia cartas e mandava algo escrito quando ele não podia ir visitar as comunidades. Quando ele esteve na prisão, quando ele achava que não era conveniente ir, nestas ocasiões, por exemplo, ele escrevia cartas.  São Paulo era um homem de comunicação interpessoal, ele criava relações, criava rede de amigos, rede de colaboradores, criava uma ligação afetiva com as comunidades.

No último Capítulo Geral, muito se trabalhou a figura de Paulo como artesão da comunhão. Como aquele que dialoga aqui, dialoga lá, com alguns conflitos, é verdade, mas ele consegue superar porque tem um objetivo grande, principal, que é o Evangelho. O Evangelho para Paulo, como sabemos é Jesus, é viver e anunciar Jesus.

Nesse sentido trago esse carisma da comunicação como diálogo e ponte para as relações interpessoais.

Eu acredito que exercerei esse ministério como todo bispo, buscando ser um pastor e, claro, trazendo comigo essa questão da comunicação, o carisma dos Paulinos.

Mons.. Valdir José de Castro

Quem é o Mons. Valdir José de Castro?

Então, [risos] vocês vão me conhecer, é difícil dizer quem eu sou, porque toda pessoa é um mistério, mas eu sou uma pessoa simples, não gosto de muita formalidade. Sou uma pessoa que busca viver essa espiritualidade Paulina e que gosta muito de criar relações. Eu vejo como fundamental a questão do caminhar juntos, trabalhar colegialmente. Claro, quando a gente fala de diálogo e trabalhar colegialmente, não significa trabalhar todo mundo igual, uniforme. A sabedoria é justamente a de caminhar nas diferenças, cada pessoa tem seus talentos e dons, é isso que é bonito, somos diferentes.

O padre Valdir é alguém que se esforça, mas que também tem defeitos, a comunicação será o nosso processo de conhecimento. Vamos nos conhecer, eu a vocês e vocês a mim, nos respeitando, sendo sinceros, usando parresia ao falar e autenticidade.

Quero conhecer a Diocese, conhecer as pessoas, principalmente conhecer as congregações religiosas que estão aqui, os párocos, os leigos, toda a diocese, será um período de escuta. Vou procurar ser eu mesmo e todos vão me conhecer no caminho.

O senhor pretende estabelecer algum tipo de rotina?

Vou tentar equilibrar. É uma diocese grande em extensão, quero conhecer todas as paróquias, desde as que estão mais longe até as mais próximas, as mais centrais. Quero conhecer as realidades e ver o que está sendo feito, dialogar com quem participa, com aqueles que exercem função de coordenação, agentes de pastorais. Temos um caminho longo, a estrada é grande. Até fica difícil pensar em tudo ao mesmo tempo, mas eu já estudei e estou entendendo como está organizada a Diocese, regiões episcopais, foranias, paróquias. Me alegro com a organização realizada pelo primeiro bispo, Dom Emílio Pignoli, e aprimorada por Dom Luiz, seu sucessor. O caminho está trilhado, vamos continuar desbravando.


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