Dom Valdir lava os pés de detentos em Itapecerica da Serra
Portas de ferro, trancas pesadas, passos contidos. Do lado de dentro do Centro de Detenção Provisória de Itapecerica da Serra “ASP Nilton Celestino”, o ambiente parece falar de limites. Mas, naquela Quinta-feira Santa, 2 de abril, algo diferente atravessava os corredores: a presença de quem veio lembrar que nem mesmo o cárcere é capaz de conter a esperança.
Foi ali que Dom Valdir José de Castro, bispo da Diocese de Campo Limpo, celebrou a memória dos gestos de Jesus, a memória da instituição da Eucaristia e o lava-pés, junto aos encarcerados do regime semiaberto. Ao seu lado, agentes da Pastoral Carcerária e os padres Alexandre Matias, assessor diocesano, e Tomáz Marek, missionário Comboniano.
Logo na chegada, o contraste: o peso da estrutura é suavizado pela acolhida. “Esse contato com a religião ajuda não só na disciplina, mas também na mudança de postura entre eles e com os agentes”, observa o diretor da unidade, Guilherme Pimentel.
Após os procedimentos de entrada, um refeitório ganha outro sentido. Entre paramentos e objetos litúrgicos, nasce uma capela provisória. Ali, abraços, apertos de mão e olhares atentos rompem a rotina. A Pastoral Carcerária, presente semanalmente, mais uma vez cumpre sua missão de ser presença da Igreja onde muitos se sentem esquecidos.

Às 15 horas, o som de um violão dá início à celebração. As vozes se unem, não importa o uniforme. Entre agentes e detentos, forma-se um só coro, forte, vivo, participante.
Na homilia, Dom Valdir fala de Páscoa como passagem. Passagem que atravessa também os muros invisíveis do coração. “Cada um sabe o motivo pelo qual está aqui, mas não se esqueçam de Jesus, nossa esperança. Ele não desanimou diante das dificuldades. O gesto de lavar os pés nos inspira a ser amor, a espalhar compaixão e caridade em um mundo marcado pelo ódio”, afirmou.
Antes de seguir, o bispo pede silêncio. Um instante para lembrar aqueles que também sofrem do lado de fora: pais, mães, familiares. O cárcere, ali, se alarga e alcança outros corações.
O ponto mais marcante vem no gesto. Doze detentos, representando os apóstolos, têm os pés lavados e beijados. Um a um. Sem pressa. Sem distinção. Alguns não conseguem conter as lágrimas. O rito, antigo e sempre novo, revela o que palavras não alcançam: dignidade restaurada, humanidade reconhecida.

Do lado de fora, a vigilância continua. Um agente armado, atento, lembra onde todos estão. Mas, dentro da capela improvisada, o clima é outro. As orações e os cantos rompem, por instantes, a lógica do lugar.
As preces falam de conversão, saúde, família. Dom Valdir acrescenta um pedido: que todos encontrem, em Cristo, a esperança e a libertação que buscam.
Ao final, o padre Alexandre Matias agradece a presença do bispo, pela terceira vez na unidade, e reconhece o apoio constante à Pastoral Carcerária, assim como a colaboração da direção e dos agentes penitenciários.
Antes da saída, alguns detentos se aproximam. Querem falar, contar suas histórias, partilhar dúvidas e angústias. O tempo já não é o mesmo, mas ainda é encontro.
Presente em todo o país, a Pastoral Carcerária reúne cerca de 3 mil agentes que, cotidianamente, atravessam portões e grades para levar consolo e dignidade aos chamados “Josés e Marias do cárcere”.
Naquele dia, entre ferro e silêncio, o gesto de Jesus foi mais uma vez lembrado. E, por alguns instantes, o amor encontrou espaço para passar.







