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Inteligência Artificial

Inteligência artificial: a Igreja tem algo a dizer

A inteligência artificial transformou o mundo em poucos anos. Mas o futuro dessa tecnologia ainda está sendo escrito e a Igreja quer participar dessa história.
 |  Pe. Rodrigo Antonio  |  Diocese

Um dia, o celular começou a sugerir a música certa na hora certa. Depois, o aplicativo de banco reconheceu seu rosto antes mesmo de digitar a senha. A sobrinha mandou uma foto editada em segundos, com um fundo que nunca existiu. O médico mostrou um laudo gerado por computador que identificara uma sombra no raio-X antes de qualquer olho humano pousasse sobre a imagem.

Nada disso chegou com um anúncio. A inteligência artificial foi entrando em nosso cotidiano, nos aplicativos que parecem adivinhar o que queremos, nas sugestões que aparecem antes de terminarmos de digitar.

O fato é que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa do futuro para se tornar parte da vida de bilhões de pessoas.

Mas afinal, o que é a inteligência artificial?

Apesar do nome que impressiona, a ideia por trás da inteligência artificial é mais simples do que parece. Imagine uma criança aprendendo a reconhecer um cachorro. Ninguém entrega a ela uma lista de regras: quatro patas, focinho, pelo, rabo. Ela simplesmente vê cachorros, em diferentes tamanhos, cores e situações, e, com o tempo, passa a reconhecê-los por conta própria, inclusive quando encontra uma raça que nunca viu antes. É exatamente assim que a inteligência artificial aprende.

Um sistema de IA é alimentado com uma quantidade enorme de dados: são muitos textos, imagens, sons e números utilizados para o chamado aprendizado de máquina, num volume, velocidade e escala que o cérebro humano jamais alcançaria. Quanto mais exemplos o sistema recebe, mais preciso se torna.

É por isso que um mesmo sistema consegue, em tese, diagnosticar uma doença, compor uma música, traduzir um discurso e responder a uma pergunta sobre a Bíblia.

Porém, é importante uma observação: a IA não tem consciência, não sente, não tem intenções. O que ela faz é reconhecer padrões e produzir respostas que, estatisticamente, fazem sentido.

A tecnologia que está por trás de ferramentas como o ChatGPT, o Gemini, do Google, entre outros se chama Large Language Model (LLM), ou “modelo de linguagem de grande escala”. Um LLM é treinado com quantidades astronômicas de texto e aprende a prever, palavra por palavra, qual sequência de linguagem faz mais sentido em cada contexto. Juntamente com o aprendizado de máquina, o resultado é um sistema capaz de redigir, resumir, traduzir, explicar e dialogar com fluência surpreendente. Há ainda as redes neurais artificiais, estruturas matemáticas vagamente inspiradas no funcionamento do cérebro humano, que permitem à máquina identificar padrões em imagens, sons e dados numéricos. É uma rede neural que reconhece seu rosto no celular ou detecta uma anomalia em um exame de imagem.

inteligencia

História

A inteligência artificial pode parecer uma novidade, mas suas raízes remontam à década de 1950, quando o matemático britânico Alan Turing publicou um artigo com uma pergunta inquietante: “As máquinas podem pensar?”. O termo foi cunhado oficialmente em 1956, numa conferência nos Estados Unidos, e desde então o campo viveu décadas de avanços, recuos e promessas não cumpridas. O aumento da capacidade computacional dos últimos anos e o volume de dados gerado pela internet deram à IA o combustível que faltava. O que mudou nos últimos anos não foi a ideia, mas a escala: com o lançamento do ChatGPT em 2022, a tecnologia saiu dos laboratórios e chegou à palma da mão de qualquer pessoa com um celular.

A Igreja diante da inteligência artificial

Diante do quadro que o uso da Inteligência Artificial desenhou no cotidiano das pessoas, a Igreja passou a se preocupar com as questões éticas que surgem dessa transformação.

As palavras do saudoso Papa Francisco sobre o tema são um convite à reflexão. Na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2024, Francisco escreveu que o desenvolvimento dessa tecnologia deve ser orientado por um “são humanismo”, expressão com que quis dizer que a IA precisa estar a serviço do ser humano integral.

Em janeiro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou Antiqua et Nova, o primeiro documento oficial da Igreja Católica dedicado inteiramente ao tema da Inteligência Artificial. O texto não condena a tecnologia, tampouco a celebra sem reservas. Faz algo mais difícil e mais necessário: propõe critérios para discerni-la.

O ponto de partida é a dignidade humana. Dessa preocupação central derivam outras, igualmente concretas. A primeira diz respeito à concentração de poder. Os sistemas de IA mais poderosos do mundo estão nas mãos de um número muito pequeno de empresas, todas sediadas em dois ou três países. Isso significa que decisões tomadas por algoritmos refletem os valores, os interesses e, às vezes, os preconceitos de quem os construiu.

Há também a questão do trabalho. A velocidade da transformação que a IA provoca no mercado de trabalho são sem precedente. Funções que levavam décadas para ser automatizadas estão desaparecendo em anos. E, ao contrário das revoluções anteriores, a IA não substitui apenas o trabalho braçal: ela avança sobre o trabalho intelectual, criativo e relacional.

Outro ponto que preocupa a Igreja é o da desinformação. Sistemas de IA são capazes de gerar textos, imagens, vídeos e áudios falsos com um realismo que torna a verificação cada vez mais difícil. Numa sociedade já fragilizada pela crise de confiança nas instituições e pela proliferação de notícias falsas, essa capacidade representa uma ameaça direta à verdade. E a Igreja, que fundou sua missão no anúncio da Verdade, não pode ficar indiferente a isso.

E ainda algo que toca o cotidiano pastoral: a substituição das relações humanas. Já existem sistemas de IA projetados para fazer companhia a idosos solitários, para simular amizade, para oferecer suporte emocional. A pergunta é o que perdemos quando uma presença humana é substituída por uma simulação, por mais sofisticada que seja.

A inteligência artificial não é boa nem má por natureza. É, como toda grande invenção humana, um espelho: ela reflete aquilo que a humanidade decide colocar nela. A invenção da imprensa difundiu o Evangelho e também propagou o ódio. A internet conectou o mundo e aprofundou a solidão. Com a IA não será diferente: seu impacto dependerá das escolhas que fizermos enquanto ainda é possível fazê-las. E é exatamente por isso que a Igreja fala. Não para frear o progresso, mas para lembrar que por trás de cada algoritmo há pessoas que os programaram. Serve aos pobres? Serve à dignidade de cada pessoa criada à imagem e semelhança de Deus? O futuro da inteligência artificial ainda está sendo escrito. E essa é, talvez, a melhor notícia: ainda somos nós que seguramos a caneta. 

info jornal diocese em acao pagina 5
Infográfico: Marcos Leonardo.