O caminho dos quarenta dias: origens e sentido da Quaresma

Todos os anos, quando chega a Quarta-feira de Cinzas, recebemos na fronte as cinzas acompanhadas das palavras: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Este gesto é uma das marcas do início da Quaresma, tempo em que somos convocados a reorientar nossa vida a Cristo.
Mas como surgiu esse tempo litúrgico? De onde vêm os quarenta dias? Por que o jejum, a esmola e a oração? A história da Quaresma é longa e bela.
Uma primeira consideração é que a quaresma surge em vista da Páscoa. Os primeiros cristãos herdaram do povo de Israel a importância da festa da Páscoa judaica. Por isso, desde o início, a Páscoa cristã se entende em continuidade e, ao mesmo tempo, em cumprimento da Páscoa bíblica.
Nos séculos II e III circulou uma interpretação popular que aproximava a palavra Páscoa do grego pathein (“sofrer”). Alguns cristãos chegaram a sustentar que Páscoa significaria paixão. Foi Orígenes (185-253), um dos maiores teólogos e estudiosos da Bíblia da Igreja antiga, quem corrigiu a noção de Páscoa resgatando o sentido bíblico: Páscoa vem de pesach, isto é, passagem, remetendo ao êxodo bíblico.
Nos primeiros séculos, o tempo de preparação para a Páscoa era muito breve: os cristãos jejuavam apenas na Sexta-feira Santa e no Sábado Santo. Eram dois dias de luto pela paixão e morte do Senhor, à espera da alegria da Ressurreição.
No decorrer do século III, a preparação para a Páscoa foi se estendendo e o jejum passou a cobrir toda a semana que antecedia a Páscoa, o que viria a ser a nossa Semana Santa. Foi depois do Concílio de Niceia (325) que o período de quarenta dias antes da Páscoa se consolidou em todo o mundo cristão como tempo de preparação pascal.
O número quarenta associa o tempo quaresmal a vários momentos bíblicos: os quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4,1-11), os quarenta anos de Israel no deserto (Dt 8,2), os quarenta dias de Moisés no Sinai (Ex 24,18), os quarenta dias de Elias até o Horeb (1Rs 19,8) e os quarenta dias do dilúvio (Gn 7,12). A Quaresma tornou-se, assim, um tempo de provação, purificação e renovação, à imagem dessas grandes experiências bíblicas.
Um dos primeiros testemunhos explícitos de uma Quaresma de quarenta dias é a Carta Festiva de Santo Atanásio de Alexandria, do ano 329, na qual o bispo convida os fiéis egípcios a observar fielmente os quarenta dias de jejum antes da Semana Santa. Outro testemunho é o diário da peregrina Egéria, que visitou Jerusalém por volta de 381-384 e descreveu as práticas quaresmais da Cidade Santa: oito semanas de preparação (descontados os sábados e domingos, em que não se jejuava), com catequeses diárias, celebrações e um impressionante itinerário litúrgico.
O catecumenato
Paralelamente a isso, duas instituições deram à Quaresma um rosto próprio: o catecumenato e a penitência pública. A Quaresma era o tempo final de preparação dos catecúmenos (os candidatos ao Batismo que seriam batizados na Vigília Pascal). Durante esses quarenta dias, os catecúmenos participavam de catequeses, recebiam os escrutínios (ritos de exorcismo e oração) e aprendiam o Credo e o Pai-Nosso. Toda a comunidade participava desse processo, acompanhando os catecúmenos com oração e jejum. A Quaresma era, assim, um tempo batismal.
Ao mesmo tempo, os penitentes públicos completavam a sua penitência para serem reconciliados na Quinta-feira Santa. Estes penitentes eram cristãos que haviam cometido pecados graves e haviam sido excluídos da comunhão. Vestidos com cilício e cobertos de cinzas, os penitentes eram apresentados ao bispo no início da Quaresma e submetidos a rigorosas práticas de jejum, oração e esmola.
A Quarta-feira de Cinzas
Um problema prático marcou a Quaresma no Ocidente: como contar exatamente quarenta dias de jejum, se os domingos, dias da Ressurreição, nunca foram dias de jejum? A solução veio no final do século VI: a Quaresma passou a começar na quarta-feira anterior ao primeiro domingo da quaresma, garantindo assim quarenta dias efetivos de jejum até o Sábado Santo (excluídos os seis domingos). Essa quarta-feira, marcada pelo rito das cinzas, tornou-se a Quarta-feira de Cinzas.
Na idade média foram reforçadas as práticas de jejum e abstinência e surgiram devoções como a Via Sacra. A liturgia quaresmal ganhou características próprias, como a supressão do Aleluia e do Glória, o uso de paramentos roxos e a austeridade na decoração das igrejas.

No início do século XX, o Papa Bento XV já havia simplificado as normas do jejum. Pio XII, em 1949, reformou a disciplina penitencial, e Paulo VI, na Constituição Apostólica Paenitemini (1966), reformulou as normas, mantendo a obrigatoriedade do jejum apenas na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, e da abstinência de carne nas sextas-feiras da Quaresma.
O Concílio Vaticano II contribuiu para a renovação do período quaresmal. A constituição Sacrosanctum Concilium, nos números 109 e 110, pediu que o duplo caráter da Quaresma fosse restabelecido: o caráter batismal e o caráter penitencial.
Quanto ao caráter batismal, o Concílio quis que a Quaresma recuperasse a sua ligação originária com o Batismo, fazendo desse tempo uma preparação para a renovação das promessas batismais na Vigília Pascal.
Dos dois dias de jejum pascal dos primeiros cristãos aos quarenta dias de caminhada comunitária que vivemos hoje, a Quaresma atravessou vinte séculos de história sem perder a sua identidade essencial: ser um tempo de preparação para a Páscoa, um tempo de conversão e renovação batismal, um tempo de encontro mais profundo com Cristo que, no deserto, venceu a tentação e nos abriu o caminho da vida nova. Essa longa história é um convite para vivermos a Quaresma com maior consciência e profundidade, sabendo que, ao jejuar, rezar e partilhar, nos inserimos numa tradição que remonta às origens da fé e que continua a gerar frutos de santidade na Igreja e no mundo.




