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Campanha da Franternidade

Sem moradia não há paz social nem justiça verdadeira

A Campanha da Fraternidade 2026 convida a Igreja a refletir sobre a moradia como direito fundamental e expressão concreta da fé que se compromete com a vida.
 |  Andrea Rodrigues  |  Diocese
Foto: Unplash

“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O lema da Campanha da Fraternidade 2026 não é apenas uma citação bíblica: é uma provocação. Se Deus escolheu morar, fazer morada, armar sua tenda no meio da humanidade, o que significa, então, viver num país onde milhões ainda não têm onde morar com dignidade?

A moradia não é luxo. Não é privilégio. Não é recompensa. É direito. É condição básica para que a vida floresça. É dentro de casa que a família se reúne, que a criança cresce, que o idoso descansa, que a fé é transmitida, que os sonhos são guardados. Quando falta a casa, falta estabilidade, falta segurança, falta chão.

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A Campanha da Fraternidade 2026, ao escolher o tema “Fraternidade e Moradia”, toca numa ferida social aberta. O déficit habitacional brasileiro não é apenas numérico. Ele se expressa nas casas improvisadas, nas áreas de risco, nas comunidades sem saneamento básico, nas famílias que vivem sob o medo constante de despejos, enchentes ou deslizamentos. Ele se revela nas calçadas ocupadas por irmãos e irmãs em situação de rua. Ele se manifesta nas periferias invisibilizadas.

Não se trata apenas de paredes e telhados. Trata-se de dignidade.

O Evangelho nos apresenta um Deus que não permaneceu distante das fragilidades humanas. Jesus nasce fora de casa, vive como migrante, experimenta a insegurança e chega a afirmar que “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. O próprio Cristo conhece a precariedade. Por isso, falar de moradia à luz da fé não é ideologia: é coerência com a Encarnação.

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A Doutrina Social da Igreja insiste que a dignidade da pessoa humana deve orientar as estruturas sociais. A casa é parte dessa dignidade. Negar condições adequadas de moradia é ferir diretamente o projeto de Deus para a humanidade. E é aqui que a Campanha da Fraternidade nos desloca da indiferença.

A Igreja no Brasil não tem ficado alheia a essa realidade. Através da Pastoral da Moradia e Favela, da Cáritas, das pastorais sociais, de mutirões comunitários, da assessoria a ocupações e da presença constante nas periferias, muitas comunidades eclesiais têm sido sinal concreto de esperança. Em diversas dioceses, agentes pastorais acompanham famílias ameaçadas de remoção, ajudam na articulação com políticas públicas e promovem ações emergenciais diante de tragédias ambientais.

Mas a Campanha da Fraternidade não se limita a reconhecer o que já foi feito. Ela nos pergunta: o que ainda precisa ser feito? O que a nossa paróquia conhece da realidade habitacional do seu território? Quem mora nas áreas de risco? Quem vive em casas sem condições mínimas? Quem está invisível aos nossos olhos?

A Quaresma é tempo de conversão. E a conversão, neste contexto, significa rever estruturas injustas, questionar modelos urbanos excludentes e assumir compromissos concretos. Significa também ampliar nosso conceito de casa. A comunidade cristã deve ser casa. Casa que acolhe. Casa que escuta. Casa que protege. Sem lar, não há Casa Comum.

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Se Cristo veio morar entre nós, não podemos aceitar que tantos irmãos e irmãs continuem sem morada digna. A fé não pode ser vivida apenas entre as paredes do templo enquanto faltam paredes seguras para tantas famílias.

A Campanha da Fraternidade 2026 nos convida a unir oração e ação. A refletir, mas também a agir. A denunciar, mas também a propor. A reconhecer que a moradia é mais que política pública: é questão evangélica.

Que esta Quaresma nos ajude a compreender que construir fraternidade passa, necessariamente, por garantir que cada pessoa tenha um lugar onde possa viver com dignidade. Porque onde há casa, há vida. E onde a vida é cuidada, Deus faz morada.

Coleta da Solidariedade: gesto concreto de partilha

Realizada tradicionalmente no Domingo de Ramos, a Coleta Nacional da Solidariedade é um dos gestos mais concretos da Campanha da Fraternidade. Fruto do espírito quaresmal de conversão e caridade, ela expressa a partilha dos fiéis em favor de iniciativas que promovem a dignidade humana e o cuidado com os mais vulneráveis.

Os recursos arrecadados todos os anos são distribuídos da seguinte forma: 40% para o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) e 60% para o Fundo Diocesano, garantindo que parte significativa das doações permaneça na própria Igreja local. Na Diocese de Campo Limpo, esses valores são aplicados em projetos pastorais e sociais apresentados pelas paróquias, pastorais e movimentos, a partir das necessidades concretas identificadas nas comunidades.

Após a apresentação e análise dos projetos, são priorizadas iniciativas que estejam em sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade e que promovam transformação social, evangelização e cuidado com a vida.

Assim, a Coleta da Solidariedade torna-se mais do que uma contribuição financeira: é sinal de comunhão e corresponsabilidade. Cada gesto de partilha ajuda a transformar realidades e testemunha que a fé se traduz em compromisso concreto com os irmãos e irmãs. As diversas iniciativas contempladas podem ser conferidas no Portal da Transparência do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), no endereço fns.cnbb.org.br, onde também é possível obter informações sobre a inscrição de projetos.

História da CF

Fraternidade que se torna compromisso

 Ao longo de mais de seis décadas, a Campanha da Fraternidade (CF) consolidou-se como uma das principais expressões da ação evangelizadora da Igreja no Brasil. A CF surgiu como iniciativa pastoral que busca aproximar ainda mais a Igreja das realidades do povo. A experiência começou na Arquidiocese de Natal (RN) em 1962, através de Dom Eugênio de Araújo Sales e foi assumida pela CNBB em 1964 como proposta nacional para o tempo da Quaresma.

Um dos textos do Concílio Vaticano II, a constituição Sacrosanctum Concilium (1963), esclarece melhor o princípio que orienta intenção da Campanha da Fraternidade: o n. 109 do documento indica que a catequese quaresmal deve conscientizar os fiéis, "juntamente com as consequências sociais do pecado", a natureza da penitência. O n. 110 do documento aponta: "A penitência do tempo quaresmal não seja somente interna e individual, mas também externa e social".

A iniciativa também tem sua fundamentação bíblica. Em Isaías 58,1-12, o profeta confronta um povo que jejua, mas não obtém resposta divina: “mesmo quando estão jejuando, vocês só cuidam dos próprios interesses e continuam explorando quem trabalha para vocês” (Is 58,3b). Deus então redefine o jejum autêntico: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente" (Is 58,6-7). A denúncia profética não elimina o jejum; antes, o reconduz ao seu sentido verdadeiro: penitência e justiça caminham juntas, e a liturgia só é autêntica quando toca a vida concreta dos mais pobres.

A cada ano, um tema específico da CF ilumina desafios concretos da sociedade, ajudando os cristãos a relacionarem a Palavra de Deus com situações como justiça social, educação, saúde, meio ambiente e promoção da dignidade humana. É preciso recordar que a CF não esgota nem substitui a Quaresma, mas a enriquece.