Aos 80, a leveza de quem caminhou com o Evangelho
A noite do dia 24 de abril tinha algo de especial no ar. Na Igreja matriz da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Ferreira, não era apenas mais uma celebração. Era encontro, memória e gratidão. Ali, entre olhares atentos e corações reunidos, o padre Darci Bortolini celebrava seus 80 anos de vida.
Pontualmente às 19h30, a comunidade se reuniu para a missa em ação de graças, presidida por Dom Valdir José de Castro e concelebrada por padres, seminaristas, o diácono Argeu Tavares e amigos, muitos deles companheiros de caminhada ao longo de décadas. Mas, no centro de tudo, estava ele: visivelmente emocionado, com a timidez que lhe é própria, olhando ao redor como quem tenta compreender a dimensão daquele momento.

“Agora sou idoso”, disse, sorrindo, com a leveza de quem carrega o tempo não como peso, mas como graça.
Na acolhida, Dom Valdir expressou sua alegria em participar da celebração e convidou todos a agradecer por uma vida “singular e exemplar”, marcada não apenas pelo sacerdócio, mas pela forma como o viveu.
Na homilia, o bispo recordou a experiência de Saulo no caminho de Damasco, o encontro que transforma, que desloca, que abre os olhos. E, a partir dessa imagem, fez um convite: que todos se libertem da cegueira da indiferença, das divisões e de tudo aquilo que afasta do Evangelho. Ao final, voltou-se ao aniversariante com um testemunho simples e forte: “Em quase quatro anos aqui, nunca ouvi um comentário negativo sobre o padre Darci. Pelo contrário, escuto que ele é um ponto de união entre o clero. Isso é muito bonito”.
No pós-comunhão, um vídeo preparado com carinho pela comunidade, percorreu fragmentos de sua história. Mais do que datas, revelou traços de um homem que fez da vida um serviço silencioso e constante.

Nascido em 24 de abril de 1946, em Garibaldi, no Rio Grande do Sul, padre Darci foi ordenado sacerdote em 1972, na Congregação dos Passionistas. Desde então, sua trajetória se desenha por caminhos diversos: das missões no Amazonas às comunidades do interior gaúcho, das paróquias da Diocese de Osasco às inúmeras iniciativas pastorais e sociais que ajudou a construir.
Na década de 80, esteve à frente da Paróquia Bom Jesus de Piraporinha, contribuindo para o surgimento de comunidades que hoje são paróquias. Mais tarde, no sul do país, mobilizou comunidades, incentivou ações solidárias e até colaborou, de forma curiosa e significativa, para a introdução do cultivo de mirtilo no Brasil.
Desde 2005, está à frente da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Ferreira, lugar onde sua presença se tornou referência. Ali, entre celebrações, projetos sociais e iniciativas em defesa da vida e do território, ajudou a construir mais do que estruturas: construiu vínculos.
A criação do Parque Chácara do Jockey, em 2016, é um desses sinais concretos de sua atuação junto à comunidade. Um gesto que revela seu olhar atento às necessidades humanas e ambientais, coerente com sua admiração pela encíclica Laudato Si’, que, dizem, conhece quase de cor.
Discreto, mas firme. Simples, mas profundamente atento ao mundo. Padre Darci é daqueles que não precisam de grandes gestos para marcar presença. Ela acontece no cotidiano: no abraço, na escuta, na palavra medida.
E, às vezes, também sobre duas rodas. Como brincou o padre Manoel Viana, ao homenageá-lo: “Se alguém estiver causando trânsito de bicicleta por aí… provavelmente é o padre Darci”. Um detalhe que arranca sorrisos e revela que, mesmo aos 80, a vida segue em movimento.

Amante da leitura, já chegou a ler mais de 50 livros em um ano. Hoje, mantém o hábito com constância, como quem continua buscando compreender melhor o mundo e servir melhor nele.
Ao final da celebração, a comunidade se reuniu no salão paroquial para prolongar a alegria. Entre abraços, partilhas e gratidão, o brinde com espumante e o corte do bolo marcaram não apenas uma comemoração, mas o reconhecimento de uma vida doada.
Mais do que aplausos, ficou a certeza de que algumas histórias não se explicam elas se vivem, se encontram e se celebram. E a de padre Darci, aos 80 anos, continua sendo escrita, dia após dia, com a simplicidade de quem fez do Evangelho o seu caminho.

































